Pouco posso acrescentar às notícias que passam em Portugal sobre a situaçao que aqui se vive. Posso talvez, falar-vos do sentimento de medo que invade os timorenses perante a iminência de um conflito. Com excepção dos mais pequenos, toda a população tem uma memória colectiva de pânico, dor, perda. Em cada família existe um trauma, um drama, uma ou mais perdas! Todos têm uma história para contar e são muitas as histórias.
Não sabemos nós, como nos fica gravado na memória, a perda de um familiar, um episódio de má memória? Agora pensam no que terá sido uma vida subjugada a torturas, pressões, perseguições, mortes, atrocidades, um, dois, cinco, dez, vinte e tal anos… fugir para as montanhas é a solução. Compreende-se. Se, de todas as vezes que se refugiaram, se salvaram, então, fugir para as montanhas é solução. Díli está semi-deserta. O comércio fechou. A grande maioria dos alunos não compareceu às aulas. As escolas fecharam. Nós, Malais, somos apanhados no meio deste pânico que se gerou; ficamos divididos, entre tentar perceber até que ponto há, ou não, razão para tanto pânico, o que saberão eles intuitivamente que nós não sabemos, qual a verdadeira dimensão da gravidade da situação.
Estas fotografias foram tiradas, da varanda do primeiro andar da Embaixada de Portugal, no primeiro dia da manifestação. Estava longe de imaginar, que alguns destes jovens militares, iam por aqui passar, enfurecidos, três dias depois e iam partir vidros e incendiar automóveis. Estava longe de saber que ia assistir a imagens de timorenses a correr pelas ruas, fugindo da confusão, dos tiros, do gás lacrimogéneo, com o pânico estampado no rosto. Estava longe de imaginar que um dia, eu, ia estar aqui, no país com o cemitério mais conhecido do mundo, pelas razões mais tristes e que iria assistir outra vez a imagens parecidas…só que estava longe, muito longe de imaginar, que volvidos tantos anos, a razão do pânico estampado nestes rostos, tem a ver com o seu irmão timorense… porque é “Lorosa’e” e não é “Loromunu” ou porque é “Loromunu” e não é “Lorosa’e”…
Em frente do Palácio do Governo

À entrada na rua que separa O Palácio do Governo da Embaixada de Portugal.



Três dias depois a passagem por aqui, não foi tão pacífica...